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Investigações desdobradas: o diálogo com os sonhos oníricos

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O diálogo com os sonhos oníricos – um ato de (r)existência

O que são os sonhos oníricos?

Nós e outros animais passamos horas em estado dormente, nos colocando em diversos estados vulneráveis, para poder exercer essa função intrínseca à existência. Mas afinal o que é sonhar e para que sonhamos?

A origem dos sonhos provém da mesma fonte que uma árvore provém, ou seja, é um fenômeno natural rodeado de mistérios que nos fascinam. Não seria justo prender tal conceito à uma explicação específica ou estática. Porém é possível estabelecer algumas características universais: brotam do inconsciente sob a forma de imagens e símbolos; é persistente em diversas espécies há milhões de anos, e nos entrega vantagens evolutivas, psíquicas e sociais.

Existem aspectos inconscientes na nossa vida em vigília, e o nosso inconsciente também é transpassado por experiências do dia. Logo, existe um diálogo motivador do porquê que nossos sonhos nos afetam tão profundamente – ocorre um momento de mistura desses dois ambientes enquanto sonhamos. 

Por exemplo, se há uma orientação: “imagine um elefante”,  as pessoas vão compartilhar uma experiência sináptica semelhante para exercer tal função. Porém cada um vai chegar a uma imagem diferente, de acordo com suas memórias, referências sociais, culturais e individuais. O responsável por essa singularidade é a nossa subjetividade que vai preenchendo as estruturas de emoções e imagens. O mesmo acontece com os sonhos noturnos – estes estão preenchidos de emoções e memórias que se integram para entregar determinadas imagens num determinado momento de vida do sonhante.

Funções evolutivas do sonho

Fazendo analogia entre corpo e computador, podemos dizer que nos últimos 300 mil anos o hardware biológico da humanidade mudou muito pouco – o nosso corpo primitivo continua com necessidades básicas como comer, dormir, sonhar, etc. No entanto, o software cultural e contemporâneo evoluiu aceleradamente, e portanto nossas referências de símbolos também. (RIBEIRO, 2021, p.38).

A ciência por algum tempo validou poucas hipóteses relativas aos sonhos, e ainda está em constante investigação para se atualizarem frente a percepções mais holísticas como as colocadas pelos povos originários. Uma dessas mudanças na perspectiva científica foi de que a experiência de sonhar, que ocorre durante o sono REM (rapid eye movement), tinha como única e objetivamente a função de apagar memórias. No entanto, ao longo dos anos esse estudo foi se complexificando.

Uma dessas descobertas recorre ao fato de que com o abaixo do nível de noradrenalina durante o sono REM, os neurônios têm a possibilidade de um espalhamento cortical muito maior e em diferentes territórios do cérebro em uma fração menor de tempo, ou seja, são capazes de fazer novas associações que em estado desperto não é possível. Na vigília as memórias se apresentam de maneira mais prática, e já ao sonhar estas se associam de forma mais livre e menos provável.

A investigação onírica como uma possível relação regenerativa

Em nossa rotina contemporânea, muitas vezes, não estabelecemos um diálogo ou uma mudança de hábito com essa parte da vida que é adormecer e sonhar. Estamos acostumados a ir dormir e acordar o corpo como uma máquina. Um dos caminhos possíveis de subverter essa relação pode ser pela relação com o corpo e com a experiência que ele atravessa durante a noite. Um bom início seria não inferiorizar nenhuma imagem ou sensação que se viveu durante um sonho. Lubrificar cada vez mais a capacidade de escutar as orientações oníricas como transporte, presença, transformação e revelação. Quando decidimos lidar com esse diálogo, a sugestão é mantermos a possibilidade de sair do nosso mundo de concepções e conclusões, pois não há nenhuma obrigação em seguir a ordem de importância que usualmente organizamos no mundo em vigília. Por exemplo, aprendemos a classificar que a aparição de uma vida humana nos sonhos é mais importante que a aparição de uma vida de um vegetal. 

Aumentar a frequência desse diálogo, possibilita que possamos retornar a prática ancestral de compartilharmos sonhos coletivamente, e que estes cenários possam compor novamente nossas tomadas de decisão em vigília, sem a intenção de torná-los produtos a resolverem nossas vidas, mas convidando para que retomem uma potencialidade que apenas no tempo mítico é possível.

A aparição de determinadas imagens nos sonhos, em determinado momento da vida do sonhante não é um fenômeno caótico ou casual. Assim como a natureza é regida por um ritmo e por uma ordem cósmica e de sabedoria superior, a vida psíquica, por ter advindo do mesmo lugar, é organizada por um padrão dominante, no qual sempre busca uma forma de se apresentar e transformar memórias.

Algumas tradições indígenas ensinam que quando sonhamos, mesmo que a alma esteja vagueando por outras dimensões, nosso coração, pulmão e espírito estão ativos e porosos a todas as sensações. Em cosmologia sofisticadas como a dos Yanomamis, o sonhador não simplesmente recebe mensagens, como é também capaz de enviá-las atuando como um porta-voz e diplomata do mundo dos espíritos, sendo essa uma forma de resistência e política. (LIMULJA, 2022, p.145)

Referências

RIBEIRO, Sidarta. O oráculo da noite. São Paulo: Companhia das Letras
LIMULJA. Hanna. O desejo dos outros: Uma etnografia dos sonhos Yanomami. São Paulo: Ubu Editora

Por Giovanna Malpighi

Mulher latino-americana aprendiz da escuta, do corpo, dos sonhos e de saberes somático-ancestrais. Graduada em psicologia, atuou como educadora durante 6 anos e hoje trabalha como psicóloga clínica apoiada pela abordagem junguiana e pela esquizoanálise. Criou o movimento Encorpa Sonhos – uma experiência de ferramentalização coletiva ao tecer diálogos com o universo onírico e com o corpo.

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